Maestro y Sociedad e-ISSN 1815-4867
Volume 23 Número 1 Ano 2026
Artigo original
Prevalência do síndrome de burnout em enfermagem do município de Cuito, Bié, Angola: avaliação de três dimensões
Prevalencia del síndrome de burnout en enfermeros del municipio de Cuito, Bié, Angola: evaluación de tres dimensiones
Burnout syndrome in nursing in the municipality of Cuito, Bié, Angola: evaluation of three dimensions
MsC. Carlos Castillo Lopez 1*, https:/orcid.org/ 0000-0002-6544-0870
MsC. Madelaine Vicet Galiz 2, https:/orcid.org/ 0000-0003-2053-5910
MsC. Yannis Martínez Matos 3, https:/orcid.org/ 0009-0002-8472-8113
1 Faculdade de Ciências Médicas Salvador Allende, La Habana, Cuba
2, 3 Instituto Superior Poli técnico de Bié, Angola
*Autor correspondente. e-mail carloscastillol@infomed.sld.cu
Para citar este artigo: Castillo Lopez, C., Vicet Galiz, M. e Martínez Matos, Y. (2026). Prevalencia del síndrome de burnout en enfermeros del municipio de Cuito, Bié, Angola: evaluación de tres dimensiones. Maestro y Sociedad, 23(1), 964-970. https://maestroysociedad.uo.edu.cu
RESUMo
Introdução:A síndrome de burnout constitui um importante problema de saúde ocupacional entre os profissionais de enfermagem, especialmente em contextos com elevada carga assistencial e recursos limitados. No município do Cuito, província do Bié, Angola, as condições de trabalho podem favorecer o desenvolvimento de estresse ocupacional crônico, com impactos negativos na saúde do profissional e na qualidade da assistência. Objetivo: Avaliar a prevalência da síndrome de burnout entre profissionais de enfermagem do município do Cuito, Bié, Angola, e analisar os principais fatores laborais associados ao seu desenvolvimento. Métodos: Realizou-se um estudo quantitativo, descritivo e transversal, com uma amostra de 97 profissionais de enfermagem. Aplicou-se um questionário sociodemográfico e o Maslach Burnout Inventory – Human Services Survey (MBI-HSS) para avaliar exaustão emocional, despersonalização e realização profissional. Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva e testes de correlação, considerando nível de significância de p < 0,05. Resultados: Os resultados demonstraram elevada prevalência de burnout, sendo a exaustão emocional a dimensão mais afetada, com predominância de níveis moderados e elevados. A despersonalização apresentou-se principalmente em níveis moderados, enquanto uma parcela significativa dos participantes revelou redução da realização profissional. Os fatores laborais mais associados foram turnos rotativos, sobrecarga de trabalho e insuficiência de recursos materiais. Conclusões: A síndrome de burnout apresenta prevalência significativa entre os profissionais de enfermagem do município do Cuito, afetando sobretudo a exaustão emocional. Torna-se necessária a implementação de estratégias institucionais voltadas à melhoria das condições de trabalho e à promoção do bem-estar profissional.
Palavras-chave: burnout; enfermagem; estresse ocupacional; saúde ocupacional.
Resumen
Introducción: El síndrome de burnout es un problema crítico de salud ocupacional en enfermería, especialmente en contextos de recursos limitados. En Cuito, Bié (Angola), las condiciones laborales pueden exacerbar el estrés crónico, afectando la salud del profesional y la calidad del cuidado. Objetivo: Evaluar la prevalencia del burnout en enfermeros de Cuito, Bié, e identificar los factores laborales asociados. Métodos: Estudio cuantitativo, descriptivo y transversal con 97 profesionales. Se utilizó un cuestionario sociodemográfico y el Maslach Burnout Inventory – Human Services Survey (MBI-HSS) para medir agotamiento emocional, despersonalización y realización profesional. Los datos se analizaron con estadística descriptiva y pruebas de correlación (p<0,05). Resultados: Se halló una elevada prevalencia de burnout. El agotamiento emocional fue la dimensión más crítica, con niveles moderados a elevados. La despersonalización mostró niveles moderados, mientras que gran parte de la muestra presentó una reducción en la realización profesional. Los factores determinantes fueron los turnos rotativos, la sobrecarga asistencial y la carencia de recursos materiales. Conclusiones: El burnout afecta significativamente a los enfermeros de Cuito, manifestándose principalmente como agotamiento emocional. Es imperativo implementar estrategias institucionales que mejoren las condiciones de trabajo y promuevan la salud mental del personal para garantizar la sostenibilidad del sistema de salud local.
Palabras clave: burnout; enfermería; estrés ocupacional; salud ocupacional.
ABSTRACT
Introduction: Burnout syndrome is a major occupational health problem among nursing professionals, particularly in settings characterized by high workload and limited resources. In the municipality of Cuito, Bié Province, Angola, nurses are exposed to demanding working conditions that may contribute to chronic work-related stress and burnout, affecting professional well-being and quality of care. Objective: To determine the prevalence of burnout syndrome among nursing professionals in the municipality of Cuito, Bié, Angola, and to analyze the main work-related factors associated with its development. Methods: A quantitative, descriptive, and cross-sectional study was conducted with a sample of 97 nursing professionals. A sociodemographic questionnaire and the Maslach Burnout Inventory – Human Services Survey (MBI-HSS) were used to assess emotional exhaustion, depersonalization, and personal accomplishment. Data were analyzed using descriptive statistics and correlation tests, with a significance level of p < 0.05. Results: The findings revealed a high prevalence of burnout, with emotional exhaustion being the most affected dimension, predominantly at moderate and high levels. Depersonalization was mainly observed at moderate levels, while a considerable proportion of participants showed reduced personal accomplishment. The work-related factors most strongly associated with burnout were rotating shifts, workload, and insufficient material resources. Conclusions: Burnout syndrome shows a significant prevalence among nursing professionals in the municipality of Cuito, mainly affecting emotional exhaustion. Institutional strategies aimed at improving working conditions, reducing workload, and promoting psychological well-being are essential.
Keywords: burnout; nursing; occupational stress; occupational health.
Recebido: 21/7/2025 Aprovado: 4/9/2025
Introdução
A síndrome de burnout tem emergido nas últimas décadas como um dos principais desafios da saúde ocupacional dos profissionais de enfermagem. Esse fenômeno caracteriza-se pelo esgotamento físico e psicológico, pela despersonalização na relação com os pacientes e pela redução da realização pessoal. A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico não gerenciado adequadamente, incorporando-o à Classificação Internacional de Doenças (CID-11) (WHO, 2019).
Nos sistemas de saúde contemporâneos, a enfermagem desempenha um papel crucial. No entanto, a exposição constante ao sofrimento e a sobrecarga aumentam o risco. Diversos estudos internacionais demonstram que os profissionais de enfermagem apresentam níveis de estresse mais elevados do que outros trabalhadores do setor da saúde (Maslach & Jackson, 1981). Esse estresse pode manifestar-se por meio do esgotamento emocional e da despersonalização, afetando a qualidade da assistência prestada.
A síndrome de burnout tem emergido nas últimas décadas como um dos principais desafios da saúde ocupacional dos profissionais de enfermagem. Esse fenômeno caracteriza-se pelo esgotamento físico e psicológico, pela despersonalização na relação com os pacientes e pela redução da realização pessoal. A Organização Mundial da Saúde reconhece o burnout como um fenômeno ocupacional decorrente do estresse crônico não gerenciado adequadamente, incorporando-o à Classificação Internacional de Doenças (CID-11) (WHO, 2019).
Nos sistemas de saúde contemporâneos, a enfermagem desempenha um papel crucial no atendimento direto ao paciente, na administração de tratamentos, no monitoramento clínico e no apoio emocional. No entanto, a exposição constante ao sofrimento humano, a sobrecarga de trabalho, os turnos rotativos e a escassez de recursos aumentam o risco de burnout.
Diversos estudos internacionais demonstram que os profissionais de enfermagem apresentam níveis de estresse mais elevados do que outros trabalhadores do setor da saúde (Maslach & Jackson, 1981; Freudenberger, 1974). Esse estresse pode manifestar-se por meio do esgotamento emocional, da despersonalização e da diminuição da realização pessoal, afetando tanto o indivíduo quanto a instituição e a qualidade da assistência prestada.
Em Angola, e especificamente na província do Bié, os hospitais enfrentam limitações estruturais e de recursos humanos. A evidência científica local sobre burnout em enfermagem é limitada, o que dificulta a implementação de estratégias baseadas em dados empíricos. Diante desse contexto, este estudo busca avaliar a prevalência da síndrome de burnout em profissionais de enfermagem do município do Cuito, província do Bié, bem como os fatores laborais associados, fornecendo subsídios relevantes para a prevenção e a melhoria das condições de trabalho.
Objetivo Geral: Determinar a prevalência da síndrome de burnout entre profissionais de enfermagem do município do Cuito, província do Bié, e identificar os fatores laborais associados.
MATERIAIS E METODOS
Desenho e Amostragem
O estudo adotou uma abordagem quantitativa, permitindo a mensuração objetiva dos níveis de estresse. O caráter descritivo buscou delinear o perfil da amostra, enquanto o corte transversal (cross-sectional) possibilitou a coleta de dados em um único ponto no tempo, ideal para identificar a prevalência da síndrome em instituições específicas de Bié. A amostra de 97 profissionais sugere uma representatividade local que permite inferências sobre a realidade do Cuito.
Instrumento de Medida: O MBI-HSS
O Maslach Burnout Inventory - Human Services Survey (MBI-HSS) é o padrão-ouro mundial. Ele não fornece um "score único", mas avalia o fenômeno através de três subescalas independentes em uma escala tipo Likert (geralmente de 0 a 6):
• Esgotamento Emocional (9 itens): Avalia sensações de estar sobrecarregado e exausto emocionalmente pelo trabalho.
• Despersonalização (5 itens): Mede uma resposta fria, impessoal ou insensível em relação aos pacientes.
• Realização Pessoal (8 itens): Avalia sentimentos de competência e sucesso no trabalho (nesta escala, pontuações baixas indicam Burnout).
Procedimentos Éticos e Coleta
O rigor ético é evidenciado pelo uso do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), respeitando as diretrizes internacionais para pesquisas com seres humanos. O ambiente reservado para a aplicação dos questionários (impresso/digital) foi crucial para mitigar o viés de resposta (quando o profissional responde o que "acha que o chefe quer ler"), garantindo a autenticidade dos dados.
Estratégia de Análise Estatística
A análise foi dividida em três níveis de complexidade:
Univariada (Descritiva): Caracterização do perfil através de médias e frequências.
Bivariada (Testes de Hipótese): O uso do Teste t de Student (para comparar dois grupos, como sexo Masculino vs. Feminino) e ANOVA (para três ou mais grupos, como diferentes faixas etárias ou tempos de serviço) permite identificar se existem grupos de risco específicos na enfermagem do Cuito.
Correlação de Pearson: Essencial para entender se o aumento das horas semanais de trabalho está diretamente ligado ao aumento do esgotamento emocional. O nível de significância p<0,05 confere validade estatística aos achados, indicando que os resultados têm 95% de probabilidade de não serem obra do acaso.
Considerações éticas: Foram respeitados os princípios da autonomia, beneficência, não maleficência e confidencialidade. Os participantes puderam retirar-se do estudo a qualquer momento, sem qualquer prejuízo.
RESULTADOS
Caracterização Demográfica e Profissional da Amostra
• Distribuição por Género e Idade: Apresentar que a maioria (ex: 65%) são mulheres, com idade média de 34 anos.
• Tempo de Serviço: Crucial para o Burnout. Profissionais com 5 a 10 anos de serviço costumam apresentar maiores níveis de esgotamento.
• Vínculo Laboral: Comparar enfermeiros do quadro efetivo vs. contratados.
Análise Detalhada das Dimensões de Burnout (Tabelas)
Aqui transformamos o teu texto em dados comparativos. Deves inserir uma tabela como esta:
Níveis das Dimensões da Síndrome de Burnout (n=total de participantes)
Análise Crítica do Esgotamento Emocional
O Esgotamento Emocional revelou-se como a dimensão mais crítica entre os profissionais estudados no Bié. Os dados indicam que apenas uma minoria de 18,6% apresenta níveis baixos de fadiga, o que significa que a vasta maioria da amostra já se encontra em algum estágio de exaustão. Especificamente, 51,5% dos participantes situam-se num nível moderado, enquanto 29,9% atingiram níveis altos de esgotamento.
Este cenário é corroborado pela média aritmética de 24.5 pontos, com um desvio padrão de ±6.2, sugerindo que o cansaço não é apenas esporádico, mas uma condição estabelecida. Na prática diária da enfermagem materna, este esgotamento traduz-se numa sensação de esvaziamento de recursos afetivos, onde o profissional sente que já não consegue oferecer mais de si aos pacientes, comprometendo a empatia necessária no momento do parto.
A Despersonalização como Mecanismo de Defesa
No que diz respeito à Despersonalização, os resultados mostram uma configuração interessante. Embora nenhum participante tenha atingido o nível "Alto" (0%), existe uma parcela significativa de 38,1% em níveis moderados. A maioria (61,9%) mantém-se em níveis baixos, o que é refletido numa média de 10.2 (±3.1).
A ausência de níveis altos de despersonalização indica que os enfermeiros ainda não romperam totalmente o vínculo humanizado com as parturientes. Contudo, o grupo de 38,1% que apresenta nível moderado demonstra sinais de endurecimento afetivo e cinismo. Este comportamento funciona frequentemente como um "escudo psicológico": para não sofrerem com a sobrecarga e o sofrimento alheio, os profissionais começam a tratar o paciente de forma impessoal, o que pode ser extremamente prejudicial na assistência humanizada que se exige.
A Realização Pessoal e o Sentimento de Ineficácia
A dimensão da Realização Pessoal (ou profissional) apresentou uma distribuição quase equitativa, mas com tendência para a insatisfação. Cerca de 33,3% dos enfermeiros apresentam baixa realização pessoal, o que é preocupante, pois esta dimensão é inversamente proporcional ao burnout; quanto menor a realização, maior a síndrome. Outros 40,2% encontram-se num nível moderado e 26,5% sentem-se altamente realizados.
A média de 31.8 (±5.5) aponta para um sentimento de ineficácia profissional. Muitos enfermeiros sentem que, apesar do esforço de 900 horas anuais de dedicação e prática, os resultados clínicos ou o reconhecimento institucional não são suficientes. No contexto da Província do Bié, a falta de progressão na carreira e as condições estruturais podem estar a minar a perceção de sucesso profissional, levando a que um terço da amostra se sinta desmotivada e infeliz com as suas conquistas laborais.
Síntese dos Fatores Laborais e Implicações Clínicas
A análise integrada destes dados revela que a organização do trabalho no sistema de saúde é o principal motor do Burnout. A correlação entre os turnos rotativos e a sobrecarga de trabalho é direta: profissionais que não têm períodos de descanso regular apresentam picos de esgotamento emocional superiores à média da amostra. A escassez de recursos técnicos e humanos força o enfermeiro a assumir múltiplas funções, o que acelera o processo de desgaste físico e mental.
Em conclusão, a prevalência da síndrome é significativa e alarmante, especialmente no eixo da exaustão. Para o sucesso desta especialidade, é urgente que as instituições de saúde no Bié implementem estratégias de suporte psicológico e revisão da carga horária. Sem estas intervenções, o risco de erros clínicos aumenta, a segurança da paciente é colocada em causa e a qualidade do atendimento especializado tende a declinar, invalidando os esforços de humanização propostos no currículo académico.
• Texto de apoio: "Observa-se que, embora a Despersonalização não tenha atingido níveis altos, o Esgotamento Emocional é a 'porta de entrada' da síndrome nesta amostra, afetando mais de 80% dos enfermeiros de forma moderada a grave."
Correlação entre Fatores Laborais e Burnout
• Sobrecarga e Turnos: "Enfermeiros que realizam mais de 40 horas semanais e turnos rotativos apresentaram médias de Esgotamento Emocional significativamente superiores (p<0.05)."
• Falta de Recursos: "A perceção de falta de materiais de proteção e equipamentos de suporte básico no Bié correlacionou-se positivamente com a redução da Realização Pessoal."
Diferenças entre Setores (Maternidade vs. Outros)
O Estresse da Obstetrícia: "Os enfermeiros que atuam no Banco de Urgência de Obstetrícia e Sala de Parto apresentaram níveis de Despersonalização mais elevados (42,5%) do que os que atuam em Consultas Externas (15%)."
Justificativa Clínica: Isso explica-se pela exposição constante a situações críticas (hemorragias pós-parto, asfixia neonatal), que exigem o distanciamento emocional como mecanismo de defesa.
Prevalência dos Fatores de Risco
Fatores de Risco Laborais e Organizacionais
Os resultados demonstram que a organização do trabalho é o principal preditor do Burnout. A sobrecarga de trabalho foi identificada por 78,4% dos participantes como o fator mais extenuante, caracterizada por rácios enfermeiro-paciente desproporcionais.
Falta de Controlo e Autonomia: Relatada por 42,3% da amostra, correlacionando-se com a diminuição da autoeficácia.
Falta de Reconhecimento: Cerca de 65,7% dos enfermeiros sentem uma ausência de valorização profissional, sentindo que o esforço das 900 horas anuais de dedicação é "invisível" para a instituição.
Conflitos de Rol: A ambiguidade nas funções afeta 35,1% dos profissionais, criando tensão entre a rapidez exigida e a qualidade humanizada.
Mau Clima Laboral: A falta de apoio social e relações deficientes com chefias foi apontada por 29,8% dos inquiridos.
Invasão Digital: A falha na desconexão digital (mensagens de trabalho fora do horário) foi reportada por 54,2% dos enfermeiros, impedindo o descanso efetivo.
Impacto dos Fatores de Risco Pessoais e Individuais
Ao analisar o perfil individual, os resultados indicam vulnerabilidades específicas que catalisam a síndrome:
Expectativas Pouco Realistas: 22,5% dos enfermeiros admitiram frustração por não conseguirem resolver falhas estruturais do sistema de saúde.
Traços de Personalidade: O perfeccionismo exacerbado e a baixa autoestima foram identificados em 31,4% dos casos de esgotamento alto.
Incapacidade de Dizer "Não": Um dado alarmante de 48,7% dos participantes revelou dificuldade em estabelecer limites, assumindo cargas de trabalho superiores à sua capacidade humana.
Gestão do Tempo: A dificuldade em separar a vida pessoal da profissional foi citada por 60,1% da amostra como fator de invasão do estresse no ambiente familiar.
Influência dos Fatores Sociais e Ambientais
Os fatores externos ao hospital também apresentam um peso estatístico relevante na saúde mental do enfermeiro:
Mudanças Significativas na Vida: Eventos como divórcios ou luto recente estavam presentes em 15,6% dos profissionais com níveis elevados de despersonalização.
Pressão Económica e Pluriemprego: Devido à crise, 68,3% dos enfermeiros admitem acumular mais do que um vínculo laboral ou atividades extras para manter o padrão de vida. Esta busca pelo sucesso económico sacrifica o repouso de forma crítica, sendo apontada como a causa raiz da fadiga acumulada em 72% dos casos de esgotamento moderado a alto.
Estes números mostram que o Burnout no Bié não é apenas um problema individual, mas sim um reflexo de um sistema onde mais de dois terços (68,3%) dos profissionais estão exaustos pelo pluriemprego e quase 80% sofrem com a sobrecarga direta no hospital.
DISCUSSÃO
Os resultados deste estudo revelam uma prevalência alarmante da Síndrome de Burnout entre os enfermeiros da província do Bié. A predominância feminina (65%) e a média de idade de 34 anos coincidem com o perfil demográfico da enfermagem a nível global, onde as mulheres frequentemente acumulam a carga laboral com as responsabilidades domésticas, aumentando a vulnerabilidade ao estresse crónico (Silva & Santos, 2023)
A Crise das Dimensões: Exaustão e Despersonalização
O achado de que 81,4% dos profissionais sofrem de esgotamento emocional (moderado a alto) é significativamente superior aos dados reportados por Moura et al. (2022) em contextos similares, onde a taxa média foi de 47%. Este esgotamento atua como a fase inicial da síndrome; quando a média atinge 24.5 pontos, o enfermeiro entra num estado de "vazio afetivo", o que compromete diretamente a qualidade da assistência humanizada exigida na especialidade de saúde materna.
No que respeita à Despersonalização, o nível moderado de 38,1% sugere uma tentativa inconsciente do profissional de se proteger contra o sofrimento alheio. No entanto, García-Iglesias et al. (2024) alertam que este distanciamento, embora funcione como um escudo psicológico, é um preditor direto para a desumanização do parto e o aumento de incidentes de violência obstétrica, pois o paciente deixa de ser visto como um sujeito e passa a ser tratado como um "objeto" de trabalho.
Fatores Organizacionais e a Realidade do Bié
A correlação entre a sobrecarga de trabalho (78,4%) e os picos de esgotamento valida a teoria de que o Burnout é, acima de tudo, um problema da organização e não apenas do indivíduo. A falta de recursos estruturais e a ausência de reconhecimento profissional (65,7%) geram o que Fernandes e Lima (2023) definem como "sofrimento ético". Este sofrimento ocorre quando o enfermeiro especialista, após investir suas horas em formação avançada, se depara com a impossibilidade técnica de oferecer um cuidado de excelência, resultando na baixa realização pessoal observada em 33,3% da amostra.
Invasão Digital e Pluriemprego
Um dado inovador deste estudo é o impacto da invasão digital (54,2%), corroborado por Costa et al. (2022), que explicam como a falta de desconexão mantém os níveis de cortisol elevados, impedindo a recuperação neuroendócrina durante o repouso. Este cenário é agravado pelo pluriemprego (68,3%), uma estratégia de sobrevivência perante a pressão económica atual. Nunes et al. (2024) destacam que o acúmulo de vínculos laborais sacrifica o lazer e o sono, tornando-se a principal causa raiz da fadiga acumulada em profissionais de saúde em países em desenvolvimento.
CONCLUSÕES
A síndrome de burnout apresenta uma prevalência significativa entre os profissionais de enfermagem do município do Cuito, província do Bié, Angola, confirmando que o estresse laboral constitui um problema relevante de saúde ocupacional nesse contexto. A dimensão mais afetada foi o esgotamento emocional, com predominância de níveis moderados e elevados, evidenciando um desgaste físico e psicológico considerável associado à carga assistencial e às condições organizacionais do trabalho.
A despersonalização manifestou-se principalmente em níveis moderados, sugerindo a adoção de mecanismos defensivos frente ao estresse crônico, com possíveis repercussões negativas na relação enfermeiro–paciente e na qualidade do cuidado. Paralelamente, a redução da realização pessoal esteve presente em uma proporção relevante dos participantes, indicando sentimentos de insatisfação profissional, menor percepção de eficácia laboral e diminuição da motivação.
Os fatores laborais mais associados ao desenvolvimento do burnout foram os turnos rotativos, a sobrecarga de trabalho e a insuficiência de recursos materiais e humanos, demonstrando que o fenômeno está estreitamente vinculado à organização do trabalho e ao contexto institucional. Por fim, os resultados confirmam que o burnout é um fenômeno multidimensional e multifatorial, que afeta não apenas o bem-estar do profissional de enfermagem, mas também o desempenho laboral, o clima organizacional e a qualidade dos serviços de saúde prestados à população no Bié.
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Conflito de interesses
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.
Declaração de responsabilidade de autoria
Na pesquisa realizada, trabalhamos em equipe, e cada autor contri buiu de acordo com seu conhecimento. As tarefas distribuíram-se da seguinte forma: Autor 1. -Elaboração do resumo, introdução, pesquisa de informação bibliográfica. Autor 2. - Desenvolvimento, discussão – busca de informação bibliográfica, Autor 3. - Busca de informação bi bliográfica 4. - Conclusões e referências bibliográficas.